Glaucia e Magali

O texto abaixo foi escrito por Glaucia Lombardi, fundadora e grande idealizadora do Projeto Cão Sem Fome.
É sempre muito lindo e emocionante ver como a dor também é capaz de fazer as pessoas produzirem coisas tão importantes!
Glau, parte da tua dor virou isso tudo!
Certeza de que quando deste mundo você partir, vai se encontrar com esses seus amores e muitos outros seres ajudados por você!
“A Magali chegou numa noite chuvosa, trazida pelo meu marido, enrolada em uma faixa da CET. Havia sido resgatada de um atropelamento na Marginal Pinheiros. Ficou horas estendida no chão até que foi acolhida, levada ao Hospital da USP, medicada e trazida para minha casa. Ela cheirava esgoto, a faixa fedia sangue e no meio daquela imundice tinha dois olhos meigos me fitando. Me aproximei daquele bicho com um pouco de receio. Era uma pastora alemã, bem grande. Eu sempre tive cachorro, mas nenhum desse tamanho.  Me mandaram dar água e deixar a bichinha descansar.
No dia seguinte fui visitar a minha hóspede que me recebeu com um olhar paciente. Sentei do lado do bicho e me senti sendo estudada, como uma cobaia de laboratório, depois percebi, que eu é que estava olhando para ela como se fosse uma cobaia. Ela tentou levantar. Eu pulei pra trás. Ela recuou, eu sentei. Parecia dócil, mas a tipóia colocada na perna quebrada parecia incomodar, mais do que a dor, mais do que o meu olhar. Tudo me incomodava naquela situação. Ela esboçou um movimento, se aproximou da minha mão, lambeu e ficou.
Daí eu tomei uma decisão. Chamei a faxineira, arrastamos a cachorra para o meu carro e levei-a à minha veterinária de confiança. Chegando lá descobrimos que o diagnóstico estava totalmente errado, que ela não havia quebrado a perna. A veterinária tirou a tipóia, deu um tranco habilidoso na perna e a cachorra levantou sozinha. Abanou o rabo, deu uns passinhos e…estava nova em folha. Nos restava dar um banho para tirar aquele fedor insuportável e voltar para casa com uma cachorra linda, de fita na orelha e totalmente saudável.
Naquela manhã, a veterinária me disse que eu tinha salvo uma vida. Ela estava errada! Foi a Magali quem me salvou.
Anos depois era sua alegria me acordando e me puxando dos lençóis, a razão que me fazia levantar da cama. Sua sensibilidade me fazia despertar e como a mão de um anjo me conduzia no meu dia. Me avisava que eu tinha de me alimentar, sentando na frente da geladeira, e só comia se eu fizesse o meu prato e comesse com ela. Me empurrava para o trabalho, pois me lembrava que ela dependia totalmente de mim. Me abraçava, abraços peludos inesquecíveis, colocava seu focinho sobre o meu joelho e lambia minhas lágrimas, ficava assim o tempo que fosse necessário, silenciosa, educada, passava desapercebida apesar do tamanho, uma verdadeira dama.
Então minha filhota ficou doente. De um dia para outro parou de andar.  Eu, com minhas precárias forças carregava a minha Magali para todos os lados da casa. Até que minha coluna não me permitia mais carregá-la. A veterinária disse que não entendia porque ela não partia e que não havia nada mais para fazer.
Eu sabia o porquê:  Ela simplesmente não queria me deixar sozinha, queria continuar cuidando de mim.
Uma noite, eu sentei ao seu lado e comecei a lhe contar uma história:
“Acima das nuvens do céu, há o céus dos céus, onde existe um jardim maravilhoso. Lá estão os cachorros que foram muito amados aqui na Terra e que fizeram seus donos muito felizes. O papai está lá, esperando por você nesse jardim. A mamãe fez tudo que pôde, mas não consegue mais cuidar de você. Eu te prometo que você pode ir sossegada, pois eu vou  conseguir me virar sozinha.”
Na manhã seguinte Magali não acordou. Ela era uma dama. E uma dama sempre sabe quando é hora de sair de cena.”
This entry was posted in Amigos pra cachorro. Bookmark the permalink.