Abrigo é a solução?

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Todos os dias pipocam notícias sobre abrigos reconhecidos que fecham suas portas por não aguentarem mais a situação precária que se encontram.

A Arca Brasil aborda o assunto em uma excelente matéria (leia aqui) que levanta a seguinte questão: Abrigos: Solução ou parte do problema?

O Cão Sem Fome, desde a sua fundação, tem se posicionado de forma muito clara frente a esse desafio.

Acreditamos que o formato “Abrigo” está falido. Não há Abrigo que consiga a curto e médio prazo dar conta da quantidade de animais abandonados e em situação de risco que existe hoje.

A situação beira o caos, muito embora não seja divulgada na sua totalidade. Sabemos dos pedidos de socorros que lotam nossas caixas postais, postagens no face, reportagens e casos tórridos contados no boca a boca, mas falta um mapeamento verdadeiro da nossa realidade atual.

O certo é que a solução só será encontrada com o comprometimento e a atuação eficaz dos órgãos competentes e um envolvimento de toda uma sociedade.

Castração em massa, acompanhamento dos animais tutelados, conscientização da sociedade, acolhimento dos animais de rua e doação, são a síntese da solução para a proteção animal, mas enquanto isso não ocorre, e mesmo que ocorresse o que é algo totalmente utópico, temos um problema para os próximos 12 anos no mínimo: O que fazer com essa população imensa de animais que já nasceram e estão vivendo em situação de abandono?

Quando digo 12 anos, é porque, mesmo que esterilizássemos hoje toda a população de cães e gatos que moram nas ruas, ainda teríamos que arcar com o ônus dos que já nasceram, e que terão uma média de vida de 12 anos ou mais.

Não há abrigo, ONG ou órgão público que dê conta disso, portanto acreditamos que a única forma de amenizar o problema é estabelecer parcerias com Protetores individuais. Essas pessoas já abrigam e cuidam de animais com seus próprios recursos e por amor. Se for dado a elas o mínimo de apoio, informação e estrutura, elas poderão amenizar esse rombo que hoje existe na sociedade.

Uma política séria que apóie o trabalho desses Protetores, dando a eles subsídios para melhorar o acolhimento dos animais, consegue melhores resultados do que qualquer Abrigo.

Os Protetores estão em todos os bairros, com uma abrangência impensável para o governo. Conhecem a região e são conhecidos, podendo realizar intervenções cidadãs impossíveis para qualquer fiscalização. O Protetor tem acesso à vizinhança, para poder, por exemplo, levar os animais da região para serem castrados, para resgatar um animal vitima de maus tratos ou acolher um animal doente ou uma cadela no cio. Um Protetor com visão cidadã, consegue evitar o problema e focar na sua origem de forma pessoal e eficaz, o que o torna um grande aliado na causa.

Muito se tem falado também sobre a questão do Acumulador, ou do falso Protetor, que usa os animais para tirar dinheiro das pessoas em beneficio próprio. A falta de monitoramento adequado e mesmo a carência total e a precariedade em que vivem essas pessoas, dá margem ao aparecimento de oportunistas ou de pessoas perturbadas que se entregam a esse tipo de patologia. Tratamento e acompanhamento é a única solução para conseguir separar “o joio do trigo” e realmente apoiar o trabalho dos protetores sérios.

Se já é difícil aos órgãos competentes manterem abrigos que funcionam bem debaixo dos seus próprios narizes, é realmente uma utopia imaginar que terão condição de fazer um acompanhamento do trabalho realizado por centenas de Protetores espalhados por toda cidade.

O Cão Sem Fome, sem nenhuma pretensão, faz a sua parte, acreditando nesse formato como a única forma eficiente de minimizar a situação do abandono animal. Sabemos que é um trabalho de formiguinha frente ao rombo que vivemos, mas acreditamos que pessoas simples, em situações limites conseguem resultados surpreendentes.

Acompanhamos o trabalho de 5 protetores escolhidos em um severo sistema de seleção.

Os protetores parceiros recebem mensalmente ração e auxilio para a manutenção da saúde dos seus animais.

O acompanhamento também é mensal para garantir que os recursos realmente estejam sendo usados para o bem dos animais.

Buscamos uma política de paz com a vizinhança para a conscientização sobre a causa animal, pois essa é uma batalha de toda uma sociedade e não uma responsabilidade que possa ser delegada a um Abrigo. O mesmo vizinho que reclama do barulho e do cheiro, ou do trabalho do Protetor é o primeiro a abandonar animais na porta dele. Se não atuarmos de forma preventiva na causa, é impossível erradicar o problema.

A temática levantada pela Arca é totalmente pertinente para esse momento e tem de ser discutida por toda a sociedade. Somos todos responsáveis!

Definitivamente, abrigo não é a solução.

Glaucia Lombardi

Coordenadora e fundadora do Projeto Cão Sem Fome
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